Novos investimentos bilionários, ampliação de usinas e aumento do processamento de grãos impulsionam a bioenergia no estado
O crescimento do etanol de milho em Goiás está redesenhando o mapa da bioenergia brasileira. Com uma sequência de investimentos de grande porte, expansão industrial e aumento da demanda por combustíveis renováveis, o estado se aproxima de um marco estratégico: assumir a posição de segundo maior produtor nacional do segmento. O avanço fortalece a industrialização do campo, amplia oportunidades para produtores rurais e movimenta diferentes regiões goianas.
Atualmente, Goiás ocupa a terceira colocação no ranking brasileiro de produção de etanol de milho. No entanto, o ritmo acelerado dos projetos em andamento indica uma mudança significativa no curto prazo. O estado já direciona parte relevante da safra para o setor industrial e prepara uma ampliação expressiva da capacidade produtiva, impulsionada por novas plantas e pela expansão de unidades já instaladas.
Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), André Rocha, a utilização do cereal para a produção de biocombustíveis deve crescer rapidamente nos próximos meses.
“Nós temos uma produção de cerca de 12 milhões de toneladas de milho, dos quais pouco mais de 2 milhões de toneladas já são destinadas à produção de etanol de milho e seus coprodutos, como o DDG e o óleo. Até o final do ano que vem, esperamos destinar cerca de 6 milhões de toneladas de milho para a produção de etanol, ou seja, devemos triplicar a produção de etanol a partir do milho”, afirmou em entrevista ao Jornal Opção.
O cenário de expansão envolve diferentes polos produtivos. Empresas instaladas em Chapadão do Céu, Quirinópolis e Vicentinópolis ampliam suas operações para atender ao crescimento do mercado. Ao mesmo tempo, a Energética Serranópolis se prepara para iniciar o processamento de milho ainda neste ano, ampliando a capacidade industrial do estado.
Entre os projetos de maior impacto está a construção da nova unidade da Inpasa em Rio Verde, considerada uma das iniciativas mais relevantes para o futuro da bioenergia goiana. A empresa já lidera a produção nacional do segmento e aposta na região para ampliar sua presença no país.
De acordo com o secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ademar Leal, a nova estrutura terá papel decisivo no crescimento da produção estadual.
“A Inpasa está sendo construída em Rio Verde com investimento entre R$ 2,5 bilhões e R$ 2,8 bilhões. Ela já é a maior produtora do país e a instalação dessa unidade vai aumentar muito a nossa produção”, destacou.
Além de Rio Verde, municípios como Montividiu, Quirinópolis e Chapadão do Céu concentram parte importante das indústrias ligadas ao etanol de milho. A distribuição dessas unidades ajuda a impulsionar a economia regional e cria novas alternativas de comercialização para os agricultores.
O avanço da atividade também amplia a integração entre agricultura e indústria. Com novas opções de mercado, produtores passam a contar com canais adicionais para escoar a safra, reduzindo a dependência exclusiva das exportações e da venda para tradings.
“Quando você começa a industrializar cada vez mais, isso incentiva o produtor, que passa a ter mais uma possibilidade de venda, não apenas para exportação ou comercialização com tradings, mas também para agregar valor ao seu produto por meio da indústria”, disse.
Uma das razões para o crescimento do etanol de milho em Goiás está nos produtos gerados durante o processo industrial. Após a retirada do amido utilizado na fabricação do combustível, o restante do grão é aproveitado na produção de insumos destinados à alimentação animal.
Entre os principais coprodutos está o DDG, ingrediente amplamente utilizado nas cadeias de bovinocultura, suinocultura e avicultura. Rico em proteína, o material tem ampliado sua participação na nutrição animal e ajudado a fortalecer a competitividade da pecuária.
“Você tira o amido do milho e o que sobra é um alimento rico em proteína e de excelente qualidade para bovinos, suínos e aves. O que você tira de milho volta para o mercado na forma de DDG. Não na mesma proporção, mas retorna como um alimento extremamente rico”, explicou Ademar Leal.
Segundo o secretário, o aumento da capacidade das usinas não compromete a oferta de milho para rações. Pelo contrário. O crescimento da produção agrícola tem acompanhado a expansão industrial, permitindo o desenvolvimento simultâneo das duas atividades.
“Não vai impactar porque a produção de milho em Goiás aumenta em volume considerável. Essas indústrias criam um ciclo virtuoso e estão viabilizando vários projetos de confinamento, granjas e outras atividades pecuárias”, afirmou.
Em meio à busca global por fontes energéticas menos poluentes, o etanol produzido a partir do milho amplia sua participação na matriz energética brasileira. O combustível surge como alternativa para reduzir a dependência de derivados fósseis e ampliar o uso de recursos renováveis.
“O impacto é positivo no sentido de ampliar o uso de combustíveis renováveis e reduzir a dependência dos combustíveis fósseis”, afirmou.
Outro fator destacado pelo setor é que a expansão ocorre em áreas agrícolas já utilizadas pela produção de grãos. Dessa forma, não há necessidade de abertura de novas fronteiras agrícolas para atender à demanda crescente das usinas.
Além dos benefícios econômicos e energéticos, as indústrias também colaboram com ações de prevenção e combate a incêndios em áreas rurais. Como as queimadas representam prejuízos para as lavouras, o setor mantém atenção constante à preservação das áreas produtivas.
O fortalecimento do etanol de milho em Goiás se soma ao protagonismo já conquistado pelo estado em outras cadeias da bioenergia. Goiás figura entre os maiores produtores brasileiros de etanol de cana, açúcar e biodiesel, além de iniciar avanços na produção de biometano.
“Hoje somos o segundo maior produtor de etanol de cana, o terceiro produtor de açúcar e também temos crescido muito na produção de biodiesel. Estamos começando a produzir biometano, principalmente a partir da vinhaça das usinas. Isso mostra que Goiás tem uma vocação muito forte para a bioenergia”, destacou André Rocha.
A combinação entre investimentos, expansão industrial, crescimento agrícola e aumento do consumo de combustíveis renováveis coloca o estado em posição privilegiada para ampliar sua participação no mercado nacional e disputar a vice-liderança brasileira na produção de etanol derivado do milho.
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