Carne bovina: suspensão da União Europeia pode mexer com preços e gerar impacto bilionário

Restrição às importações brasileiras levanta dúvidas sobre mercado interno, exportações e exigências sanitárias do bloco europeu

Carne bovina suspensão da União Europeia pode mexer com preços e gerar impacto bilionário

A decisão da União Europeia de suspender as compras de carne bovina brasileira acendeu um alerta entre produtores, frigoríficos e consumidores. Embora a medida tenha forte peso para o setor exportador, especialistas avaliam que os preços da carne no mercado interno devem permanecer estáveis nos próximos meses. O cenário, porém, pode ganhar novos contornos em 2027, dependendo da oferta de animais e da capacidade do Brasil de redirecionar os embarques para outros destinos.

A restrição anunciada pelo bloco europeu está ligada a exigências relacionadas à rastreabilidade dos rebanhos e ao controle do uso de antimicrobianos na pecuária. Atualmente, a União Europeia ocupa posição estratégica entre os compradores da carne brasileira, especialmente dos cortes de maior valor agregado, o que aumenta a preocupação de produtores e indústrias.

Segundo o analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), Marcelo Penha, o impacto imediato tende a ser limitado devido à participação relativamente pequena do mercado europeu nas exportações totais do país. No entanto, ele alerta para a combinação de fatores que pode alterar o equilíbrio entre oferta e demanda.

“Eu acredito que, pelo volume ser pequeno, não vai afetar tanto assim. Embora exista a questão da China, que deve reduzir as importações por conta do excesso de carne no país asiático. Se juntarmos as duas situações, estamos falando de uma sobra no mercado interno em torno de 10%, caso não sejam encontrados novos mercados para essa carne. É mais ou menos o que a gente vai reter de fêmeas para produzir bezerros. Se isso acontecer, o cenário é mais de estabilidade de preços. Agora, para o ano que vem, a situação muda. Porque o ciclo pecuário já estará na metade e acredito que possa haver mais abate de fêmeas, o que pode provocar uma queda nos preços devido ao aumento da oferta de carne no mercado.”

A avaliação ocorre em meio às mudanças exigidas pelos europeus para garantir maior transparência em toda a cadeia produtiva. O bloco defende mecanismos capazes de acompanhar a trajetória completa dos animais, desde o nascimento até o abate, além de comprovar o controle sobre substâncias utilizadas na produção.

Carne bovina enfrenta novas exigências da União Europeia

Um dos principais pontos de atenção envolve o uso de medicamentos antimicrobianos na alimentação animal. Em diversos sistemas produtivos, esses produtos são empregados tanto para tratar enfermidades quanto para melhorar o desempenho do rebanho. Para autoridades europeias, a prática pode contribuir para o surgimento de bactérias resistentes aos medicamentos.

Após anos de auditorias e visitas técnicas realizadas em propriedades rurais e frigoríficos brasileiros, a União Europeia concluiu que parte das recomendações ainda não foi implementada de forma integral. Por isso, decidiu interromper as importações a partir de setembro.

Enquanto as exigências aumentam, produtores brasileiros já buscam alternativas aos produtos tradicionais. Segundo Penha, novas soluções nutricionais vêm sendo adotadas para manter a eficiência produtiva sem gerar os questionamentos observados pelos mercados mais rigorosos.

“São produtos que não fazem mal ao ser humano. Seriam o tanino, os fracionados de levedura e os óleos essenciais adicionados à ração para melhorar a capacidade digestiva do animal e converter isso em produção de carne.”

Além dos antimicrobianos, a rastreabilidade individual dos animais aparece entre os requisitos considerados prioritários pelos europeus. A meta é garantir acesso completo ao histórico dos bovinos destinados à exportação.

“Eles querem saber onde o bezerro nasceu, onde foi recriado e onde foi terminado, no caso dos bovinos de corte. Querem saber por onde ele passou e se houve controle total do que foi fornecido a esse animal durante todo o período em que permaneceu em cada propriedade. A ideia do Brasil é ampliar a rastreabilidade individual para todo o rebanho. Já estamos bastante adiantados e muitos estados também avançaram nessa proposta. Goiás, principalmente, já conta com o Sidago, Sistema de Defesa Agropecuária de Goiás, pronto para realizar toda essa operação”, detalha Penha.

Mercado europeu paga mais pela carne brasileira

A relevância da União Europeia para a carne bovina brasileira não está apenas no volume comprado, mas também nos preços praticados. O bloco é reconhecido por pagar valores superiores à média registrada em outros mercados internacionais, principalmente pelos cortes premium.

Em 2025, as vendas de carne bovina brasileira para a Europa movimentaram cerca de US$ 1 bilhão. Somente a carne de frango adicionou outros US$ 760 milhões às exportações nacionais, demonstrando o peso econômico da relação comercial.

De acordo com Thiago Carvalho, coordenador de pecuária do Cepea/USP, o diferencial financeiro oferecido pelos europeus torna o mercado especialmente atrativo para os exportadores.

“Realmente, a União Europeia é um mercado de valor agregado para a carne brasileira. Um exemplo é a Itália, que paga pela nossa carne algo em torno de US$ 9 por quilo. Enquanto a média geral das exportações brasileiras varia entre US$ 5,50 e US$ 6 por quilo. Portanto, a União Europeia paga um sobrepreço. Para Goiás, o bloco europeu é o segundo maior comprador da carne bovina produzida no estado.”

Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil embarcou 34,4 mil toneladas de carne bovina para o mercado europeu. Desse total, Goiás respondeu por 4,5 mil toneladas, representando 13% das exportações nacionais destinadas ao bloco.

Setor teme perdas e trabalha para reverter suspensão

A preocupação é ainda maior entre empresas e pecuaristas que investiram durante anos para atender aos padrões exigidos pela União Europeia. Em Goiás, apenas dois frigoríficos possuem autorização para exportar ao bloco, resultado de um longo processo de adequação sanitária e certificação.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias Frigoríficas de Carnes do Estado de Goiás (Sindicarne-GO), Leandro Stival, a medida traz prejuízos justamente para quem realizou investimentos visando esse mercado.

“Então, o pecuarista que investiu e se dedicou acaba ficando penalizado. É muito ruim para nós, como indústria, porque sabemos da dificuldade que é habilitar um país ou um bloco de países por meio de acordos sanitários.”

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou que mantém trabalho conjunto com o Ministério da Agricultura e Pecuária para adaptar protocolos e buscar adequação às novas exigências apresentadas pelos europeus.

Apesar do anúncio da suspensão, ainda existe uma possibilidade de reversão antes da entrada em vigor da medida. Segundo Marcelo Penha, isso dependerá diretamente da capacidade de atender às demandas relacionadas à rastreabilidade ampliada e ao controle das informações exigidas pelo bloco.

“Essa possibilidade pode acontecer desde que o Brasil cumpra as exigências. Porém, o que estamos entendendo é que o SISBOV, que está sendo utilizado até agora, não está mais atendendo às solicitações da Europa. O pedido é por uma rastreabilidade mais ampla, em que todas as informações exigidas pelo bloco estejam disponíveis, como dados sobre o uso de antimicrobianos e a origem de animais provenientes de fazendas desmatadas após 2020.”

Caso a suspensão seja mantida, as perdas financeiras podem alcançar cifras expressivas para o setor exportador brasileiro. “A gente entende que isso representa algo em torno de US$ 1 bilhão, valor semelhante ao registrado com as importações no ano passado”, conclui Penha.

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