Venda de terras raras de Goiás chega ao Congresso

Negócio de R$ 2,8 bilhões reacende debate sobre soberania, influência estrangeira e criação de estatal

Venda de terras raras de Goiás chega ao Congresso

A venda de uma mineradora em Goiás por cerca de R$ 2,8 bilhões colocou o Brasil no foco de uma disputa internacional por minerais críticos, essenciais para tecnologias avançadas. O movimento reacendeu debates no Congresso Nacional e dentro do governo sobre soberania, investimentos estrangeiros e o papel do país em um mercado dominado pela China.

Com a segunda maior reserva mundial desses elementos, o Brasil passa a ser observado com ainda mais atenção por potências globais. Os chamados minerais críticos incluem 17 elementos fundamentais para a produção de equipamentos eletrônicos, energias renováveis e sistemas militares. Atualmente, a China responde por cerca de 90% da produção mundial, o que intensifica a corrida de países como os Estados Unidos por novas fontes.

Disputa global pressiona decisões no Congresso

O tema já mobiliza o Legislativo brasileiro, onde tramita um projeto relatado por Arnaldo Jardim. A proposta busca estabelecer diretrizes para exploração, incluindo incentivos econômicos, facilitação de licenças e acesso a financiamento. A votação estava prevista, mas foi adiada após articulações do governo.

Durante análise política, Julliana Lopes destacou o peso estratégico do tema. “Isso já coloca o Brasil em lugar de competitividade, no meio de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, por isso esse tema é muito importante”, explica Julliana. O cenário global amplia a pressão por decisões rápidas e estruturadas.

Outro ponto sensível da proposta envolve a possibilidade de criação de uma estatal voltada ao setor. “E é um projeto que não trata, mas quase tratou, da criação de uma estatal. Esse que é o ponto principal dessa discussão”, acrescenta a analista. A ideia gerou resistência dentro e fora do Congresso.

Estatal divide governo e gera reação política

A eventual criação da empresa pública chamada “Terrabras” provocou divergências. Parte dos parlamentares teme que uma estatal afaste investidores estrangeiros em um momento considerado estratégico. Já outra ala defende maior controle nacional sobre recursos considerados essenciais.

Dentro do próprio governo, há posições distintas. A bancada do Partido dos Trabalhadores sustenta que a estatal garantiria soberania sobre recursos estratégicos. Ainda assim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria barrado a proposta neste momento, avaliando impactos políticos em ano eleitoral.

O episódio também envolve o ex-governador de Goiás e pré-candidato à Presidência, Ronaldo Caiado, que participou das negociações da venda da mineradora Serra Verde para o grupo norte-americano. A operação despertou questionamentos jurídicos e políticos.

Venda bilionária de terras raras vira alvo de ação e disputa internacional

O PSOL acionou a Procuradoria-Geral da República contra a venda, alegando riscos à soberania nacional. “O PSOL está entrando com uma ação na PGR contra essa venda, dizendo que se trata de uma questão de soberania nacional e que Caiado não deveria estar à frente disso, e sim a União”, destaca.

O interesse dos Estados Unidos nesse mercado não é recente. A estratégia da Casa Branca busca reduzir a dependência da China, ampliando parcerias e investimentos em países com reservas relevantes. O Brasil surge como peça importante nesse cenário geopolítico.

Há também um reconhecimento de que o país ainda enfrenta desafios estruturais para aproveitar plenamente esse potencial. Enquanto a China desenvolve sua cadeia produtiva há cerca de 20 anos, o Brasil ainda avança lentamente em etapas fundamentais.

O ciclo completo, que vai da identificação dos minerais até a produção de tecnologia de alto valor, pode levar de 10 a 15 anos. Esse processo exige investimentos robustos, planejamento de longo prazo e estabilidade regulatória para atrair capital e garantir competitividade.

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