A força econômica da cultura popular em Goiás: um vetor de desenvolvimento multissetorial

Cultura como ativo econômico: da identidade ao mercado

A força econômica da cultura popular em Goiás um vetor de desenvolvimento multissetorial

Historicamente associada à tradição e à memória, a cultura popular goiana — incluindo festas religiosas, folias, congadas, catira, culinária tradicional e saberes artesanais — passou a ser reconhecida como parte da chamada economia criativa. No Brasil, esse setor já representa cerca de 2,6% do PIB nacional, com crescimento de aproximadamente 70% em uma década, evidenciando seu potencial econômico.

Em Goiás, esse movimento se intensifica quando políticas públicas e iniciativas privadas articulam cultura, turismo e empreendedorismo. O resultado é um ecossistema onde manifestações culturais deixam de ser apenas patrimônio imaterial e passam a operar como cadeias produtivas completas, envolvendo produção, circulação e consumo.

Impacto direto: eventos culturais como motores econômicos

Os dados mais concretos vêm dos grandes eventos culturais do estado. Em 2024 o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) gerou R$ 14,8 milhões de impacto econômico na cidade de Goiás.

Outros eventos, como o Canto da Primavera e a Mostra de Teatro Nacional de Porangatu, também movimentaram comércio, serviços e turismo local.

Esses números demonstram um princípio essencial da economia da cultura: o efeito multiplicador. Cada real investido em cultura circula por diversos setores — hospedagem, alimentação, transporte, comércio informal e serviços.

Cultura e turismo: uma relação estruturante

O turismo é um dos principais canais de monetização da cultura popular. Em Goiás o estado recebeu 850 mil viagens em 2023, movimentando cerca de R$ 1,2 bilhão.

O setor turístico apresentou crescimento de 5,5% em 2024, sendo um dos mais dinâmicos da economia goiana.

A cultura popular é um dos principais atrativos desse fluxo, especialmente em destinos como: Cidade de Goiás (patrimônio histórico e festas tradicionais), Pirenópolis (festas do Divino, cavalhadas), Região do Araguaia (tradições ribeirinhas), Chapada dos Veadeiros (cultura local integrada ao ecoturismo). Além disso, o turismo cultural contribui para descentralizar a economia, fortalecendo municípios do interior e reduzindo a dependência de setores como o agronegócio.

Efeitos econômicos indiretos e setoriais

Gastronomia

A culinária típica — como pamonha, arroz com pequi, empadão goiano — funciona como um produto cultural de alto valor agregado. Eventos culturais ampliam o consumo gastronômico, estimulando microempreendedores, feiras locais e cadeias de produção agrícola familiar.

Educação

A cultura popular fortalece currículos escolares (educação patrimonial), gera demanda por cursos técnicos e universitários (artes, turismo, produção cultural) e promove inclusão social por meio de projetos culturais comunitários.

Saúde e bem-estar

Embora menos evidente, há impacto relevante: práticas culturais tradicionais contribuem para saúde mental e pertencimento social. Eventos culturais estimulam convivência comunitária e reduzem isolamento. Atividades como dança e música têm efeitos terapêuticos.

Geração de emprego e renda

A cadeia cultural envolve artistas, técnicos, produtores, artesãos, comerciantes. Grande parte desses agentes atua em micro e pequenas empresas, predominantes na economia criativa.

Cultura como estratégia de desenvolvimento regional

Estudos indicam que investimentos em cultura melhoram indicadores socioeconômicos locais, reduzem fluxos migratórios para grandes centros, fortalecem economias regionais com identidade própria. Isso ocorre porque a cultura gera economia territorializada — ou seja, riqueza que permanece no próprio local, ao contrário de setores mais concentradores.

Projeção: o potencial ainda não explorado

Apesar dos avanços, o potencial da cultura popular em Goiás ainda está subutilizado. Com planejamento estratégico, é possível ampliar o calendário cultural anual (reduzindo sazonalidade turística), integrar cultura com rotas gastronômicas e ecológicas, criar polos de economia criativa no interior, fortalecer a exportação simbólica da identidade goiana.

Se considerarmos o crescimento do turismo e o impacto comprovado de eventos, é plausível projetar que a cultura popular possa movimentar bilhões de reais anuais no estado, especialmente com políticas integradas.

A cultura popular e tradicional de Goiás não é apenas herança — é infraestrutura econômica. Seus impactos vão muito além do setor cultural, alcançando turismo, educação, saúde, gastronomia e desenvolvimento regional.

Os dados mostram que eventos culturais geram milhões em impacto direto, o turismo movimenta bilhões e cresce continuamente a economia criativa é um setor em expansão acelerada.

Diante disso, investir em cultura não é gasto: é estratégia econômica. E, no caso de Goiás, trata-se de uma das mais promissoras alavancas para um desenvolvimento sustentável, inclusivo e identitário.

Por Mestra Geovanna de Castro
Produtora Cultural, Presidente da Associação Coró de Pau e Arte Educadora

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