Pesquisa mostra que abrir o próprio negócio já supera antigos desejos de consumo e estabilidade no país
O desejo de abrir o próprio negócio nunca esteve tão presente na vida dos brasileiros. Uma pesquisa inédita revela que o empreendedorismo saltou de 34% para 40% da população adulta em apenas um ano, o maior avanço entre todos os sonhos analisados no país.
O salto de seis pontos percentuais colocou o desejo de empreender na segunda posição do ranking nacional de aspirações, atrás apenas da casa própria. Pela primeira vez em treze anos de levantamento, nenhum outro sonho cresceu tanto quanto este.
Os dados fazem parte da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025, considerada o maior estudo sobre empreendedorismo do mundo. Realizada há 26 anos no Brasil, a pesquisa ouviu 2.350 adultos brasileiros entre junho e agosto de 2025, dentro de uma amostra que envolveu 53 países.
>> Leia também: Investimentos em startups disparam e impulsionam inovação em Goiás
Em números absolutos, o Brasil já reúne 42,5 milhões de pessoas que ainda não têm negócio aberto, mas pretendem empreender nos próximos três anos. O país aparece como o segundo maior do mundo em número de empreendedores potenciais.
Só a Índia, com cerca de 150 milhões de pessoas nessa condição, supera o Brasil neste quesito. O resultado brasileiro fica à frente de nações como Estados Unidos, Egito e México, tradicionalmente fortes em iniciativa empresarial.
Quando o cálculo considera apenas quem ainda não tem empresa própria, o cenário se torna ainda mais expressivo. Cerca de 45% dos brasileiros nessa situação afirmam que pretendem abrir um negócio em breve.
A motivação por trás desse movimento também mudou nos últimos anos. Em 2017, apenas 18% dos brasileiros citavam o próprio negócio entre seus principais sonhos, em meio a uma recessão que empurrava trabalhadores para a informalidade.
Já em 2020, durante a pandemia, esse índice disparou para 59%, impulsionado pela instabilidade econômica e pela urgência de gerar renda. O cenário de 2025, no entanto, é bem diferente e revela uma transformação real no perfil do empreendedor brasileiro.
A proporção de pessoas que dizem empreender porque os empregos são escassos caiu para 71%, o menor índice de toda a série histórica da pesquisa. Em contrapartida, cresceu o número de brasileiros motivados pela construção de patrimônio e pela independência financeira.
A vontade de construção de grande riqueza ou renda muito alta manteve o recorde histórico, com 69% das citações. Já o desejo de continuar uma tradição familiar atingiu o maior patamar já registrado, alcançando 46% dos entrevistados.
Entre os que efetivamente abriram um negócio em 2025, 58% afirmaram ter empreendido por oportunidade, e não por necessidade. O percentual é maior que os 55% registrados no ano anterior, mostrando uma mudança de postura.
A pesquisa também traçou um retrato mais detalhado desse grupo. Entre os 26,9 milhões de empreendedores iniciais, ou seja, negócios com até três anos e meio de existência, 60% são homens e 62% se declaram pretos ou pardos.
Essa proporção de negros e pardos empreendendo é a maior dos últimos cinco anos, um dado que chama atenção dos especialistas. A maioria desses novos empresários, cerca de 74%, possui apenas o ensino médio completo ou menos escolaridade.
Mais da metade desses empreendedores vive com renda de até três salários mínimos, reforçando que o empreendedorismo brasileiro segue concentrado nas camadas de renda média e baixa. O movimento é amplo, mas ainda desigual.
Um dos destaques da pesquisa é o crescimento de empreendedores acima dos 45 anos. Hoje, 33,7% dos brasileiros que abriram negócio recentemente pertencem a essa faixa etária, o maior percentual já registrado pela série histórica.
O dado sugere que profissionais mais experientes têm migrado do mercado formal em busca de autonomia e novos projetos de vida. Muitos veem no próprio negócio uma alternativa mais segura depois de anos de carreira tradicional.
Por outro lado, a participação das mulheres no empreendedorismo recuou. Elas representam hoje 39,5% dos empreendedores iniciais, o menor percentual desde 2003, segundo a pesquisa. O dado indica que o avanço ainda não chega igualmente a todos.
A pesquisa também ouviu 55 especialistas para avaliar o ambiente de negócios do país. Entre os pontos positivos, aparecem a dinâmica do mercado interno, a infraestrutura física e uma cultura cada vez mais favorável a empreender.
No índice NECI, que mede a qualidade do contexto empreendedor, o Brasil avançou da 48ª para a 44ª posição entre os países avaliados nos últimos quatro anos. É um avanço, mas ainda distante do ideal.
Os obstáculos, porém, seguem conhecidos e resistentes. Faltam crédito acessível para negócios em estágio inicial, sobra burocracia, e a educação empreendedora ainda é frágil no ensino fundamental e médio brasileiro.
Esses fatores explicam por que, mesmo com o desejo em alta, a taxa total de empreendedorismo no país recuou de 33,4% para 31,6% em 2025. O Brasil, hoje, produz mais vontade de empreender do que condições reais para isso.
Copyright © 2025 // Todos os direitos reservados.