Quando um empreendimento imobiliário começa a ser planejado, normalmente ainda levará alguns anos até chegar às mãos do comprador. Entre estudos de viabilidade, projetos, aprovações, contratação de fornecedores, execução das obras e entrega das chaves, decisões tomadas hoje influenciam diretamente a competitividade e a sustentabilidade financeira do negócio. É justamente por isso que a previsibilidade sempre foi um dos ativos mais importantes da construção civil e é exatamente ela que passa a ser desafiada pela reforma tributária.
Muito se discute sobre as novas alíquotas e seus possíveis reflexos sobre os custos. Mas a reforma representa uma transformação estrutural na forma como as empresas planejam investimentos, administram contratos e conduzem seus empreendimentos.
Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a transição para o novo sistema tributário seguirá até 2033 e exigirá adaptação das empresas a um modelo baseado no aproveitamento de créditos tributários e na revisão de processos internos. Para a entidade, essa mudança tende a reduzir distorções como o chamado “imposto sobre imposto”, ao mesmo tempo em que exige maior controle das operações e planejamento da cadeia produtiva.
Na incorporação imobiliária, trabalhamos hoje para entregar empreendimentos daqui a três ou quatro anos. Por isso, este não é apenas o momento de estimar impactos sobre custos, mas de compreender como a reforma afetará cada etapa da operação, revisar contratos, aperfeiçoar processos e preparar toda a empresa para uma nova realidade. A discussão envolve as áreas fiscal, contábil, engenharia, suprimentos, planejamento, tecnologia, financeiro e comercial.
Uma simulação realizada com base na estrutura tributária dos fornecedores responsáveis pela execução de um empreendimento nosso identificou um potencial impacto médio de 5,07% nos custos dos insumos. O estudo não representa uma projeção para todo o setor, já que cada empresa possui uma cadeia de fornecedores distinta, mas demonstra a importância de conhecer os impactos da reforma antes de sua implementação.
Outro ponto que merece atenção é o split payment, mecanismo que prevê o recolhimento automático da CBS e do IBS no momento do pagamento. Para a construção civil, isso significa uma nova dinâmica de capital de giro e reforça a necessidade de planejamento financeiro ao longo de todo o ciclo dos empreendimentos.
Além de discutir quanto a reforma poderá custar, acredito que o maior risco está em não se preparar para ela. Empresas que anteciparem esse processo terão melhores condições de revisar estratégias, fortalecer sua gestão e atravessar a transição com mais segurança.
A reforma tributária traz desafios, mas também uma oportunidade de modernizar a gestão e tornar o setor mais eficiente. No mercado imobiliário, construir sempre significou olhar para o futuro. Agora, essa visão de longo prazo deixa de ser apenas uma característica da atividade para se tornar uma condição essencial para continuar crescendo com solidez.
Camila Inácio é diretora de empreendimentos da Consciente Construtora e Incorporadora e vice-presidente do Núcleo de Mulheres do Mercado Imobiliário de Goiás (Nummi).
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