Nunca se falou tanto sobre liderança. Empresas investem em inteligência artificial, produtividade e transformação digital. Ao mesmo tempo, aumentam os casos de burnout, a dificuldade de reter talentos, os conflitos entre gerações e a pressão sobre executivos e gestores. É um paradoxo. Quanto mais ferramentas temos para apoiar as decisões, maior parece ser o peso de decidir.
Ao longo de mais de duas décadas atuando na liderança de equipes, na gestão de crises, em investigações corporativas e na formação de executivos, percebi que os maiores riscos para uma organização nem sempre vêm das mudanças do mercado. Muitas vezes, começam dentro da mente de quem lidera.
Foi essa constatação que me motivou a escrever Líderes bons também tomam decisões ruins – e você não está imune a isso. O livro parte de uma realidade pouco discutida: profissionais competentes, éticos e experientes também erram. Na maioria das vezes, esses erros não acontecem por falta de conhecimento técnico, mas porque as decisões são tomadas sob pressão, medo, excesso de confiança, cansaço ou, simplesmente, no piloto automático.
Existe uma expectativa de que o líder sempre sabe o que fazer. Quem entrega bons resultados passa a carregar a imagem de alguém que nunca falha. O problema é que esse reconhecimento pode se transformar em um peso quando surgem situações para as quais não existe resposta pronta.
Crises aparecem sem aviso. Podem surgir em momentos de instabilidade econômica, em conflitos internos, denúncias, acidentes ou mudanças repentinas no mercado. Nessas horas, a qualidade da decisão depende menos da técnica e mais da capacidade do líder de compreender o que acontece dentro de si para responder melhor diante do inesperado. Por isso, considero o autoconhecimento uma das competências mais importantes da liderança contemporânea.
Liderar pessoas sem aprender a administrar os próprios pensamentos e emoções é um caminho arriscado. Impaciência, vaidade, rigidez, excesso de controle ou dificuldade para ouvir opiniões diferentes deixam de ser apenas características pessoais e passam a influenciar decisões, enfraquecer equipes e comprometer resultados.
As organizações já perceberam esse desafio. Desenvolver líderes preparados para atuar em ambientes complexos continua sendo uma das maiores preocupações das empresas. Ao mesmo tempo, cresce o estresse entre gestores e aumenta a dificuldade de formar novas lideranças, o que mostra que desenvolver competências técnicas já não é suficiente.
Também precisamos abandonar a ideia de que vulnerabilidade é sinal de fraqueza. O líder que reconhece seus limites ganha mais clareza sobre seus processos de decisão e reduz a influência de impulsos que costumam aparecer justamente nos momentos mais críticos.
Não existem líderes perfeitos. Existem líderes dispostos a aprender continuamente, rever comportamentos e transformar erros em aprendizado.
A pergunta mais importante que um gestor precisa fazer hoje é “o que está influenciando minha decisão?”. Em um ambiente de mudanças aceleradas, decidir melhor é o maior diferencial competitivo.
Vanessa Carvalho é sócia-fundadora da CCL Projetos Transformacionais, especialista em Liderança e Gestão de Crises, mestre em Administração e autora do livro Líderes bons também tomam decisões ruins – e você não está imune a isso.
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