Possível restrição ao uso de antibióticos na produção de bovinos pode elevar custos e mudar o sistema produtivo brasileiro
A possível restrição ao uso de antimicrobianos na pecuária brasileira mobiliza representantes do setor e o governo federal. A discussão ganhou força após a União Europeia endurecer as regras para a importação de carne bovina produzida com essas substâncias. Agora, produtores acompanham com atenção o debate por receio de que a medida internacional passe a valer em todo o território nacional.
A preocupação envolve principalmente o impacto econômico sobre a cadeia produtiva. Caso uma norma nacional seja adotada, pecuaristas teriam de adaptar sistemas de produção utilizados há décadas, mesmo quando destinam a carne para países que não fazem essa exigência. O cenário preocupa porque aumentaria os custos em diferentes regiões do país, independentemente do mercado comprador.
Segundo o coordenador do programa Pese Bem, da Faeg, Alexandre Reis, o maior temor do setor está relacionado à possibilidade de a regra aplicada pela União Europeia servir de referência para futuras normas brasileiras. A avaliação é de que uma decisão desse tipo teria efeitos amplos sobre toda a atividade pecuária.
Ainda de acordo com Alexandre Reis, mercados considerados estratégicos para a carne brasileira, como o Japão, não exigem esse tipo de restrição. Mesmo assim, uma eventual proibição nacional obrigaria todos os produtores a seguir as mesmas regras, elevando despesas também para quem não exporta ao bloco europeu.
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Embora a União Europeia responda por apenas entre 3% e 4% do volume exportado de carne bovina brasileira e represente cerca de 4% a 5% do valor embarcado, aproximadamente R$ 1 bilhão em 2025, o bloco mantém grande influência sobre o comércio internacional. No setor, existe o entendimento de que decisões europeias costumam ser observadas por outros compradores ao redor do mundo.
O debate sobre os antimicrobianos na pecuária ganhou relevância justamente por esse efeito indireto. Ainda que o mercado europeu tenha participação limitada nas exportações brasileiras, qualquer alteração regulatória pode influenciar negociações futuras com outros destinos internacionais.
Outro ponto levantado pelos representantes da pecuária envolve as alternativas disponíveis para substituir os antimicrobianos. Opções naturais, como probióticos e enzimas, vêm sendo estudadas pela indústria, mas ainda enfrentam desafios para alcançar a mesma eficiência produtiva obtida com os ionóforos, utilizados para melhorar o aproveitamento alimentar dos bovinos.
Segundo Alexandre Reis, muitos desses produtos permanecem em fase de testes e ainda não apresentam comprovação suficiente para substituir completamente as substâncias empregadas atualmente na produção. Essa incerteza amplia as dúvidas do setor sobre uma eventual mudança obrigatória nas práticas adotadas pelos pecuaristas.
As projeções apresentadas pelos representantes da cadeia produtiva indicam que uma restrição ao uso de antimicrobianos na pecuária pode gerar impacto financeiro significativo. A estimativa é de um custo adicional próximo de R$ 2 bilhões por ano para os produtores brasileiros.
Esse aumento estaria ligado à necessidade de adaptação dos sistemas de produção, à adoção de novos insumos e à busca por tecnologias capazes de manter os atuais níveis de produtividade. O tema segue em discussão entre entidades do agronegócio e o governo federal, enquanto o setor acompanha os próximos desdobramentos das negociações.
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