Chuvas irregulares entre setembro e outubro podem atrasar plantio e exigir replantio nas lavouras
Um possível El Niño de forte intensidade no segundo semestre de 2026 acende o alerta para o início da safra 2026/27 em Goiás, especialmente no período de implantação das lavouras de soja e milho. A avaliação é da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), que monitora os boletins da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e projeta maior irregularidade nas chuvas justamente na fase mais sensível da semeadura das culturas de verão.
Segundo o assessor técnico da Faeg, Lucas Lopes, a atualização da NOAA divulgada em julho elevou de forma expressiva a probabilidade de consolidação do fenômeno. O órgão americano trabalha com a possibilidade de anomalias na temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central acima de 2,0°C entre outubro e dezembro, patamar que caracteriza um episódio de forte magnitude. A chance de esse cenário se confirmar saltou de 63%, no boletim de junho, para 81% na atualização mais recente.
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O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, capaz de alterar os padrões de chuva em diversas regiões do planeta, incluindo o Centro-Oeste brasileiro. Em episódios de maior intensidade, o fenômeno tende a provocar veranicos e distribuição irregular das precipitações justamente nos meses que antecedem o plantio das principais culturas de verão no Brasil.
Para Lucas Lopes, o histórico recente reforça a preocupação do setor produtivo goiano. “Historicamente, episódios de El Niño de maior intensidade provocam alterações importantes na distribuição das chuvas em diversas regiões produtoras do Brasil. Em Goiás principalmente, as projeções indicam maior irregularidade das precipitações justamente no período de implantação das lavouras de verão, setembro e outubro, o que pode comprometer a germinação, a emergência e o estabelecimento inicial das culturas, especialmente da soja e do milho primeira safra”, afirma o assessor técnico.
A germinação uniforme da soja depende de chuvas regulares e bem distribuídas, que garantam umidade adequada no perfil do solo. Segundo Lopes, a irregularidade das precipitações compromete diretamente esse processo. “Quando as precipitações ocorrem de maneira irregular, com eventos isolados seguidos por períodos prolongados de estiagem, aumenta significativamente o risco de falhas na emergência das plantas, desuniformidade do estande e, em situações mais severas, morte de plântulas e necessidade de replantio”, explica.
O especialista também chama atenção para o efeito das temperaturas elevadas sobre o solo. “Outro fator são as temperaturas elevadas intensificam a evapotranspiração, aceleram a perda de umidade do solo e ampliam o estresse hídrico nas fases iniciais de desenvolvimento da cultura”, acrescenta.
Os efeitos do fenômeno climático não se limitam à soja. Como o milho segunda safra costuma ser semeado logo após a colheita da soja, qualquer atraso no cronograma tende a se propagar ao longo do calendário agrícola. “Para o milho segunda safra, os impactos ocorrem principalmente de forma indireta. O atraso no plantio da soja tende a postergar sua colheita, reduzindo a janela ideal de semeadura do milho”, diz Lopes.
Segundo ele, isso empurra parte das lavouras para períodos de maior risco climático. “Como consequência, parte das lavouras passa a ser implantada em períodos de maior risco climático, caracterizados por menor disponibilidade hídrica e maior probabilidade de déficit de chuvas durante as fases mais sensíveis da cultura, especialmente no florescimento e no enchimento de grãos. Esse cenário compromete o potencial produtivo e aumenta a exposição dos produtores às adversidades climáticas ao longo do ciclo da segunda safra”, completa.
O risco também pode alcançar o algodão, cuja semeadura depende igualmente da regularidade das chuvas e do encadeamento do calendário agrícola após a colheita da soja.
O impacto do El Niño não se restringe às grandes culturas de grãos. A produção de frutas, legumes e hortaliças em Goiás já vem sendo afetada pela redução das chuvas observada no primeiro semestre de 2026, antes mesmo da intensificação prevista do fenômeno. “O segmento hortifrutigranjeiro apresenta elevada sensibilidade às variações de temperatura e disponibilidade hídrica. Mesmo antes da intensificação prevista do El Niño, a redução das chuvas observada ao longo do primeiro semestre já vem impactando a oferta de diversos produtos”, relata o assessor da Faeg.
A menor disponibilidade hídrica aumenta a dependência da irrigação, eleva os custos de produção e reduz a produtividade das culturas mais sensíveis ao déficit de água, com reflexo direto na oferta de alimentos e nos preços pagos pelo consumidor.
Para a Faeg, o período entre setembro e outubro deve concentrar as decisões mais importantes da safra 2026/27 em Goiás. “O período entre setembro e outubro é considerado decisivo, pois antecede o início do plantio da soja. Caso as chuvas se atrasem ou ocorram de forma irregular, poderá haver comprometimento da germinação e do estabelecimento das lavouras, exigindo, em alguns casos, o replantio de áreas e o adiamento da semeadura”, avalia Lopes.
Ele lembra ainda que um atraso na soja tem efeito em cadeia sobre as demais culturas. “Os reflexos não se restringem à soja. Um plantio tardio reduz a janela ideal para a implantação do milho de segunda safra, aumentando a exposição da cultura ao déficit hídrico durante as fases mais críticas de desenvolvimento. Situação semelhante pode ocorrer com o algodão, cuja semeadura também depende da adequada distribuição das chuvas e do calendário agrícola”, diz.
Apesar do cenário de atenção, o setor agropecuário goiano chega a este ciclo em condições melhores do que em episódios anteriores de El Niño, como os registrados nas safras 2015/16 e 2023/24. “De forma geral, os produtores goianos estão mais preparados para enfrentar eventos climáticos extremos do que em safras anteriores, como as de 2015/16 e 2023/24. Esse avanço reflete a maior adoção de tecnologias no campo, o acesso a informações meteorológicas cada vez mais precisas e o fortalecimento das estratégias de gestão de riscos nas propriedades rurais”, afirma Lopes.
O assessor técnico pondera, no entanto, que o cenário econômico limita a capacidade de reação dos produtores. “A crescente intensidade e frequência dos eventos climáticos extremos continuam representando um importante desafio para a agropecuária. Esse cenário se torna ainda mais preocupante diante das atuais limitações econômicas enfrentadas pelo setor, como a maior restrição ao crédito rural, as elevadas taxas de juros e os custos de produção ainda elevados, além do Plano Safra 26/27 não ser contemplado com a Política de Seguro Rural”, destaca.
Diante do cenário de incerteza climática, a Faeg orienta os produtores a aguardarem a regularização das chuvas antes de iniciar a semeadura e a respeitarem o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), instrumento do Ministério da Agricultura e Pecuária que define as janelas de plantio recomendadas para cada região e cultura, reduzindo o risco de perdas por eventos climáticos adversos.
Entre as demais recomendações da entidade estão o investimento em cultivares mais tolerantes ao déficit hídrico, a manutenção do sistema de plantio direto, o uso de plantas de cobertura, a adoção de práticas de conservação do solo e da água e a ampliação do uso de tecnologias de monitoramento climático nas propriedades rurais.
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