Parceria prevê investimento de US$ 575 milhões e reacende debate sobre controle federal e interesse internacional nos recursos brasileiros
O estado de Goiás formalizou, em 18 de março de 2026, um acordo com os Estados Unidos para explorar minerais estratégicos conhecidos como terras raras. A parceria, que envolve investimentos de 575 milhões de dólares, coloca o Brasil no centro de uma disputa global por recursos essenciais à tecnologia e à transição energética. A iniciativa também levanta discussões sobre soberania, licenciamento e a ausência do governo federal nas negociações.
O interesse internacional se explica pelo potencial brasileiro. O país abriga a segunda maior reserva mundial de minerais críticos, fundamentais para setores de alta tecnologia. Entre eles estão lítio, cobalto, níquel e terras raras, matérias-primas indispensáveis para semicondutores, baterias de carros elétricos e painéis solares. Goiás aparece como um dos principais polos dessas riquezas, o que despertou atenção direta dos norte-americanos.
A assinatura do acordo ocorreu no mesmo dia de um fórum sobre minerais críticos realizado em São Paulo, que reuniu representantes ligados ao governo dos Estados Unidos e empresários brasileiros. Apesar da relevância do tema, a ausência de integrantes do governo federal chamou atenção e gerou questionamentos sobre articulação institucional em torno de um setor considerado estratégico.
O governador Ronaldo Caiado destacou a importância do avanço tecnológico dentro do próprio país. “Extremamente importante para que Goiás não seja apenas uma exportadora de matéria-prima, para ser amanhã separado fora do Brasil, desenvolvendo as tecnologias que hoje dependem desses minerais fora daqui. Esse acordo é exatamente a identificação de áreas que têm terras raras”, afirmou Caiado.
Para que projetos de mineração avancem no Brasil, é necessária autorização da Agência Nacional de Mineração, já que os recursos minerais pertencem à União. Esse ponto torna inevitável a participação do governo federal, mesmo diante de acordos firmados em nível estadual. Especialistas apontam que a coordenação entre diferentes esferas será determinante para o sucesso das iniciativas.
O diretor-presidente interino do Instituto Brasileiro de Mineração, Pablo Cesário, ressaltou a necessidade de alinhamento institucional e desenvolvimento de mercado. “o governo federal e os governos estaduais vão precisar trabalhar em conjunto, porque são competências complementares. O governo federal fala sobre a mineração. Os governos locais, estaduais, vão ter que fazer o licenciamento ambiental. Mas aqui o grande desafio que a gente precisa é inserir o mercado global nesses produtos, e esse mercado ainda não existe”.
Além do acordo, o contexto político também ganhou destaque. A revogação do visto de entrada de Darren Beattie, assessor do governo dos Estados Unidos, repercutiu nos bastidores do evento. Ele havia indicado participação no fórum, o que foi contestado pelos organizadores. O Itamaraty considerou que houve inconsistência nas informações apresentadas e cancelou a autorização.
Paralelamente, Beattie solicitou autorização para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. O pedido chegou a ser autorizado, mas foi posteriormente negado pelo ministro Alexandre de Moraes. Os episódios aumentaram a tensão em torno da agenda envolvendo representantes norte-americanos no país.
O movimento dos Estados Unidos em direção às reservas brasileiras também está ligado à tentativa de reduzir a dependência da China. Atualmente, o país asiático domina a tecnologia de separação e processamento de terras raras, etapa essencial para uso industrial desses minerais.
Apesar do avanço das negociações, qualquer exploração efetiva depende de aprovação federal. O Ministério de Minas e Energia não comentou a ausência na assinatura do acordo até a última atualização.
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